E estas noites brancas e claras e este silêncio que não pára de gritar.
E que muda de voz, e que muda de forma, e que de repente é gente, e que de repente é rosto,
Que se ri de mim e das minhas noites sem sono
E da minha cama feita de lençóis amarrotados de tanto virar o corpo procurando descanso e posição.
Só sinto cansaço. O sono não chega. E as horas morto que não tenho.
E os comprimidos... rebuçados inúteis,
As bulas, publicidade enganosa, fraudulenta, que prometem o que não dão.
“Não ultrapassar a dose recomendada”, leio.
Que dose recomendada?
Já ultrapassei todas as precauções, todas as prescrições, todos os conselhos, todas as doses.
A vida sim, é dose!
É dose dupla.
É dose tripla.
É dose que atropela e ultrapassa.
É ladra que rouba e esconde as minhas noites escuras de sono e olvido.
Quero as minhas horas morto.
Mereço horas morto!
E o silêncio que não pára de murmurar frases que quero esquecer.
E o meu quarto que parece avenida num desfile de Carnaval onde todos os rostos usam máscara,
E a máscara é a mesma,
E os rostos confundem-se e os corpos fundem-se num só rosto num só corpo.
E o meu que não dorme
E o meu que levanto para beber um copo de água,
E o vidro/copo/espelho reflecte os meus olhos de insónia e as olheiras escuras da noite branca.
Só sinto cansaço. O sono não chega. E as horas morto que não tenho.
Quero as minhas horas morto ou enlouqueço.
Preciso das minhas horas morto ou não sobrevivo.
E a luz que acendo, e o livro que abro e leio duas linhas e atiro contra a parede,
E os dez passos que dou entre as paredes prisão.
Uma e outra vez…
Dez passos.
Uma e outra vez…
Tento abafar o silêncio com a voz do Roger Watters.
E o génio na voz, e o génio na lâmpada e na música que me prometia três desejos e me diz:
- “...You've used up your last wish. Your last wish…”
Só sinto cansaço. O sono não chega. E as horas morto que não tenho …
My last wish…
Agradeço e peço desculpa á " Encandescente " por usar algo dela e deixar a sensação que era meu.
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